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A voz própria de mim

Quisera ser um pássaro, pousado na ponta de um galho altaneiro.

Da haste sobrevivente em meio ao alagado, ver salpicadas minhas lembranças.

Observar, nos flocos de espuma, os múltiplos contornos da minha vida.

A forma exata de mim.


Quisera ser um pássaro, pousado na ponta de um galho altaneiro.

Do alto dessa vara, buscar meu ponto de equilíbrio.

Descobrir, nas águas plácidas, o reflexo cristalino de minha figura, sem distorções.

A visão exata de mim.


Quisera ser um pássaro, pousado na ponta de um galho altaneiro.

De peito aberto, receber a brisa fresca de uma manhã de primavera.

Sentir, a cada aragem, a calma presença do amor.

A temperatura exata de mim.


Pousado na ponta de um galho altaneiro, quisera ser um pássaro.

Do arco projetado na imensidão do universo, poder olhar sem limites.

Perceber, desse diminuto ponto no espaço, a dimensão do meu lugar no mundo.

O tamanho exato de mim.


Quisera ser um pássaro, pousado na ponta de um galho altaneiro.

Ali, no silêncio absoluto, nenhum burburinho do mundo ouvir.

Escutar, no outono da vida, o que minha alma tem a dizer.

A voz própria de mim.



Crônica escrita durante o módulo Mosaico Santa Sede 2022

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