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Alienação facial

  • 20 de abr.
  • 2 min de leitura


Ontem sonhei com o E.T., aquela figurinha de cara achatada do filme de Spielberg, lançado no Brasil em 1982. Um alienígena do bem, de rosto triangular, boca rasgada e grandes olhos azuis. No meu sonho, ele tinha voltado ao seu planeta para relatar como andava sua missão: transformar todos os habitantes do planeta visitado em criaturas à sua imagem e semelhança.


Assustada, procurei me distrair um pouco com a televisão para conseguir pegar no sono novamente. Mas o que vi me fez esfregar os olhos — certamente ainda não tinha despertado o suficiente, pois lá estavam as carinhas triangulares circulando alegremente, dando as notícias da madrugada.


Corri para lavar o rosto com água fria e mudar de canal, porque, por alguma brincadeira macabra da memória, a tela parecia refletir meu sonho — aquelas moças do noticiário não podiam ter se transformado em alienígenas.


Tentei então assistir à reprise de um capítulo recente de novela. Boa opção: ali, certamente, as atrizes estariam caracterizadas de acordo com seus papéis e o pesadelo estaria desfeito.

Senti a cabeça rodar.


O que apareceu foram minhas conhecidas de longa data, exibindo os mesmos rostos triangulares, sobrancelhas altas e arqueadas, bocas rasgadas, olhos esticados.


Aquilo me perturbou a ponto de decidir me afastar completamente daquela visão grotesca. Sem dúvida, minha retina estava reproduzindo na tela da TV os efeitos do pesadelo com o E.T.


Para cortar de vez aquela ilusão de ótica, fui dar uma olhada nas últimas notícias, e lá estava uma seção inteira dedicada à aparição da megastar Madonna no show de Sabrina Carpenter, no Coachella.


Coloquei e tirei os óculos várias vezes, pensando que talvez meu grau de miopia tivesse aumentado. Nada feito. A imagem do alienígena continuava a me atormentar.


Assim como aquelas figuras da televisão, tanto a estrela pop de 67 anos quanto sua companheira de palco, que acaba de completar 26, pareciam moldadas na mesma forma: maçãs do rosto salientes, boca rasgada, olhos arregalados, pele de tamborim — marmorizadas a tal ponto que pareciam ter quase a mesma idade.


Não restavam mais dúvidas: a missão do E.T. estava sendo cumprida.


E ele havia começado pela transformação das mulheres daquele primeiro batalhão chamado antigamente de líderes de opinião e agora de influencers.


Essa onda logo atingiria as mulheres comuns — se é que muitas já não tinham sido abduzidas pelo visual padrão da nova era.


E eu?


Quis correr para o espelho.


Num susto, abri os olhos.


Ufa.


Eu nunca tinha saído da cama.


Então era tudo apenas o pesadelo… do pesadelo.

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