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Amor incondicional

  • há 13 horas
  • 3 min de leitura

— Meu bem, telefone pra você. É da creche… acho que temos um problema com o Leozinho.

— Ai meu Deus, o que pode ser? Me passa.

— Alô? É a Glorinha? Oi, o que houve?

À medida que ouvia, a expressão mudava.

— Levou uma mordida? De quem? Da Biba? Quase arrancou a orelha dele? Não acredito! Isso é um absurdo!


E foi aí que perdeu de vez a compostura:

— Como assim você está tratando isso com naturalidade? Convidar a Biba pra vir aqui em casa… socializar? Mostrar que não guardo rancor? Eu realmente não estou entendendo.


Respirou fundo — sem muito efeito:

— Glorinha, com todo respeito, isso não faz o menor sentido. Eu não vou trazer essa criatura pra dentro da minha casa. Além de agressiva, vive despenteada, com um bafo… duvidoso. Vou buscar o Leozinho agora e ver o tamanho do estrago. Amanhã, quando for deixá-lo aí, conversamos.


Do outro lado, a resposta veio medida:

— Talvez você esteja reagindo de forma um pouco mais intensa do que o esperado dentro da proposta da creche...

O comentário só piorou tudo.

— Intensa? Intensa?!


O marido, já ao lado, lhe estendeu um copo d’água e fez sinais discretos para encerrar a ligação. Ela assentiu, respirou mais uma vez e tentou recompor a voz:

— Ok… vou conversar com o André e ver o que fazemos.

Desligou ainda contrariada.


Depois de muito debate, decidiram procurar aconselhamento. Gostavam da creche, queriam que o Leozinho continuasse ali — mas aquela história de “perfil da comunidade” não lhes saía da cabeça. O que, afinal, havia de errado com eles? Tudo bem, ela podia ter exagerado um pouco… mas ainda assim.

Foram juntos, dispostos a responder com absoluta sinceridade.


Freda os recebeu com um sorriso acolhedor, ouviu o relato e, após alguns instantes, propôs um pequeno questionário.

Perguntas simples. Respostas diretas: sim ou não.

Responderam sem dificuldade.


Ao final, Freda explicou que aquilo ajudaria a conduzir melhor o aconselhamento. Pegou o papel e começou a ler, em silêncio:

— Costumam convidar os coleguinhas para sua casa ou tomar conta deles quando os pais precisam sair? NÃO

— Se importam se sobem no sofá com os pés sujos? SIM

— Limpam o cocô dos amiguinhos, se necessário? NÃO

— Abraçam e beijam com entusiasmo quando se aproximam, mesmo babados? NÃO

— Compartilham a própria comida com eles? NÃO

— Se importam se quebram alguma coisa na sua casa? SIM


— Gostam de saber todos os detalhes da vida deles — hábitos, manias, gracinhas? NÃO

Houve um breve silêncio.


Freda se ajeitou na cadeira, mantendo a expressão serena.

— Pelas respostas de vocês, percebo uma certa dificuldade em aderir ao modelo afetivo predominante nesse grupo.

O casal se entreolhou, atento.

— Em outras palavras, vocês não operam exatamente na lógica do… amor incondicional irrestrito.


Fez uma pausa breve.

— O que, nesse contexto, pode ser interpretado como resistência, distanciamento… ou até falta de acolhimento.


Eles permaneceram em silêncio.

— A reação à situação da Biba, portanto, não é um caso isolado. Ela apenas torna mais visível uma diferença de postura.


Mais uma pausa.

— Em suma, vocês não são pet lovers.

Olhou para os dois, com um leve sorriso profissional.

— São… apenas donos de cães.

Silêncio.

— E, nesse caso, não há muito o que aconselhar.

 

2 comentários

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Ana Raja
há 9 horas
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Adorei, Ana! Só percebi que era um petzinho quase no final. Talvez, a relação amorosa entre os humanos e seus bichinhos se aproxima do amor pelos filhos (humamos).

Ah, se essa Biba morde a minha Nina!

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Ana Helena Reis
Ana Helena Reis
há uma hora
Respondendo a

Que ótimo! Fiquei em dúvida se os leitores iriam achar que eu estava fazendo uma crítica aos pet lovers, pois eu queria só brincar com esse tema, sem julgamento de valor.

Obrigada pelo comentário.

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