Amor incondicional
- há 13 horas
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— Meu bem, telefone pra você. É da creche… acho que temos um problema com o Leozinho.
— Ai meu Deus, o que pode ser? Me passa.
— Alô? É a Glorinha? Oi, o que houve?
À medida que ouvia, a expressão mudava.
— Levou uma mordida? De quem? Da Biba? Quase arrancou a orelha dele? Não acredito! Isso é um absurdo!
E foi aí que perdeu de vez a compostura:
— Como assim você está tratando isso com naturalidade? Convidar a Biba pra vir aqui em casa… socializar? Mostrar que não guardo rancor? Eu realmente não estou entendendo.
Respirou fundo — sem muito efeito:
— Glorinha, com todo respeito, isso não faz o menor sentido. Eu não vou trazer essa criatura pra dentro da minha casa. Além de agressiva, vive despenteada, com um bafo… duvidoso. Vou buscar o Leozinho agora e ver o tamanho do estrago. Amanhã, quando for deixá-lo aí, conversamos.
Do outro lado, a resposta veio medida:
— Talvez você esteja reagindo de forma um pouco mais intensa do que o esperado dentro da proposta da creche...
O comentário só piorou tudo.
— Intensa? Intensa?!
O marido, já ao lado, lhe estendeu um copo d’água e fez sinais discretos para encerrar a ligação. Ela assentiu, respirou mais uma vez e tentou recompor a voz:
— Ok… vou conversar com o André e ver o que fazemos.
Desligou ainda contrariada.
Depois de muito debate, decidiram procurar aconselhamento. Gostavam da creche, queriam que o Leozinho continuasse ali — mas aquela história de “perfil da comunidade” não lhes saía da cabeça. O que, afinal, havia de errado com eles? Tudo bem, ela podia ter exagerado um pouco… mas ainda assim.
Foram juntos, dispostos a responder com absoluta sinceridade.
Freda os recebeu com um sorriso acolhedor, ouviu o relato e, após alguns instantes, propôs um pequeno questionário.
Perguntas simples. Respostas diretas: sim ou não.
Responderam sem dificuldade.
Ao final, Freda explicou que aquilo ajudaria a conduzir melhor o aconselhamento. Pegou o papel e começou a ler, em silêncio:
— Costumam convidar os coleguinhas para sua casa ou tomar conta deles quando os pais precisam sair? NÃO
— Se importam se sobem no sofá com os pés sujos? SIM
— Limpam o cocô dos amiguinhos, se necessário? NÃO
— Abraçam e beijam com entusiasmo quando se aproximam, mesmo babados? NÃO
— Compartilham a própria comida com eles? NÃO
— Se importam se quebram alguma coisa na sua casa? SIM
— Gostam de saber todos os detalhes da vida deles — hábitos, manias, gracinhas? NÃO
Houve um breve silêncio.
Freda se ajeitou na cadeira, mantendo a expressão serena.
— Pelas respostas de vocês, percebo uma certa dificuldade em aderir ao modelo afetivo predominante nesse grupo.
O casal se entreolhou, atento.
— Em outras palavras, vocês não operam exatamente na lógica do… amor incondicional irrestrito.
Fez uma pausa breve.
— O que, nesse contexto, pode ser interpretado como resistência, distanciamento… ou até falta de acolhimento.
Eles permaneceram em silêncio.
— A reação à situação da Biba, portanto, não é um caso isolado. Ela apenas torna mais visível uma diferença de postura.
Mais uma pausa.
— Em suma, vocês não são pet lovers.
Olhou para os dois, com um leve sorriso profissional.
— São… apenas donos de cães.
Silêncio.
— E, nesse caso, não há muito o que aconselhar.


Adorei, Ana! Só percebi que era um petzinho quase no final. Talvez, a relação amorosa entre os humanos e seus bichinhos se aproxima do amor pelos filhos (humamos).
Ah, se essa Biba morde a minha Nina!