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Café com leite

Existem alguns aromas que a nossa lembrança olfativa remete a cenas do passado com uma incrível riqueza de detalhes. Dizem que o olfato está diretamente ligado à parte do cérebro onde se concentram as memórias, de forma mais duradoura e intensa até do que a audição e a visão, desencadeando fortes emoções. Para mim, um desses aromas é o do café com leite.


O refeitório do colégio era uma sala grande, com mesas baixinhas de fórmica verde claro, compartilhadas por quatro crianças. Os turnos de lanche iam sendo servidos de acordo com a série escolar, as crianças menores em primeiro lugar. Esperávamos em fila, na porta, até nossa hora de entrar. Já ali, do lado de fora, o aroma do café com leite açucarado, misturado com o da manteiga derretida do pão francês, exalava uma quentura deliciosa. Essa quentura doce e reconfortante da infância ainda povoa as minhas lembranças, quando me aproximo de uma mesa de café da manhã.


O hábito do lanche à tarde, na mesa da copa de casa, também remete ao café com leite já servido, e ao aviso em voz alta de “Lanche!” tão esperado pelas crianças. Ele vinha pelando e não tão doce como o do refeitório, o que realçava mais o cheiro do café forte e não tanto do leite. O acompanhamento era o ponto alto: um pão doce ou um pedaço de bolo.


Esse momento marcava o descanso das atividades de lição de casa, passadas pela escola, e a permissão para pegar a bicicleta, brincar no jardim, a alforria. Conforme fomos crescendo, o café em pó foi sendo substituído pelo solúvel no leite, justamente para tornar a bebida mais forte, mais encorpada. É esse o cheiro que meu olfato gravou do café com leite tomado à hora do lanche. Seu perfume aviva a lembrança de um pacto familiar de união, amor e carinho que se perpetuou, mesmo depois que todos seguiram pela vida adulta. O convite para um lanche ficou incorporado à tradição familiar e continua sempre presente em nossos encontros, agora com mais café do que leite.


Mas de onde surgiu essa combinação de duas diferentes bebidas? Pelo que se sabe foi na Europa, no século XVII, introduzida por um viajante neerlandês Nieuhof, que atuou como embaixador em Quilon.


Na China, Nieuhof conheceu o hábito de dar leite com chá a tuberculosos. Em suas viagens, apresentou a bebida aos europeus, mas substituindo o chá por café. Os alemães adoraram porque como o café era importado e custava caro, a mistura resultava em economia. Daí para frente, os países produtores de leite pensaram em misturar as duas bebidas, oferecendo a energia do café com os nutrientes do leite.


Unir energia e nutrientes, porém, não explica o porquê da expressão popular “ele é café com leite” usada para qualificar alguém a quem se dá uma colher de chá (desculpem o trocadilho!). E aí a origem vem da política, praticada no período conhecido como República Velha. Era resultado do revezamento presidencial entre paulistas (produtores de café) e mineiros (produtores de leite) que, na verdade não era para valer.


Daí para frente, a expressão foi usada para designar quem ainda não está apto para alguma atividade, quem propõe uma coisa que de antemão se sabe que não vai valer, na política e fora dela.

Para minha memória olfativa, esse café com leite do faz de conta tem um cheiro às vezes doce de canela, uma benevolência concedida com carinho às crianças pequenas em algumas situações. Mas, dependendo do contexto, o cheiro desse não é para valer é ácido, de leite azedo.


Prefiro, então, me lembrar somente do perfume do café com leite da infância e até deixar de usar essa expressão, porque descobri uma saída. Como tudo evolui e estamos na era da Internet, surgiu uma outra maneira de se referir a uma pessoa novata no grupo ou sem experiência – o "newbie". Este termo veio dos militares para se referir aos soldados rasos recém chegados, a quem chamavam de "noob" ou registravam como "n00b", e foi incorporada ao dicionário dos internautas.


Não acham que está bem a propósito para o momento? Vou aderir.

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