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Morte anunciada

Sabe aquele segundo em que dá um flash e temos certeza de que, na gíria de hoje, vai dar ruim e não dá mais para voltar atrás?

Pois é, sou mestra, acho que até PHD nisso. Depois fico furiosa comigo mesma, pois estava na cara que o desastre iria acontecer, mas não me corrijo; aliás, não consigo me corrigir, é mais forte do que eu. Talvez uma compulsão por viver perigosamente, sei lá, os psicólogos que analisem...


As ocasiões em que a morte anunciada acontece são as mais variadas. É aquele segundo em que o lado esquerdo diz: vai nessa, e o direito não tem tempo de sussurrar: não vai dar certo. Os exemplos desses meus momentos são inúmeros, e acho que, em alguns deles, o leitor também vai se reconhecer: subir para pegar uma coisa na prateleira de cima do armário usando uma cadeira de rodinhas; olhar se o bolo está pronto no forno espetando um palito, sem usar luvas; deixar para colocar combustível no próximo posto para chegar a tempo no compromisso e assim por diante. O tamanho e gravidade do desastre variam, mas são sempre motivos de riso e choro de ódio.


Uma das consequências desse, acho que podemos dizer assim – vício – é que essas pessoas se tornam alvo do anedotário geral. Passam a ser assunto nas rodas de amigos, entre os familiares, e até se permitem rir de si mesmas, como é o meu caso dessa crônica.


Como já escancarei minha fraqueza, fecho com o último episódio vivido há poucas semanas.

Choveu a noite inteira. O chalé em que estava hospedada ficava no alto de uma colina, serpenteada pela rua de acesso que formava um barranco, cujo limite era alguns arbustos e uma linda árvore. Nessa encosta, bastante íngreme, foi plantada grama e, devo dizer, de forma primorosa pois parecia um tapete recém estendido, sem uma ruga sequer.


Sai do chalé com intenção de ir até um lugar plano para jogar bola com o cão, quando me lembrei de que precisava também descartar o lixo, portanto: uma mão com o saco de lixo, outra com a bola e a guia do cachorro. Até aí, tudo azul. Ao descartar o lixo no local adequado, que era próximo do início do barranco, me esqueci de que tinha somente duas mãos, ou seja: uma para abrir a lixeira, outra para segurar o cachorro pela guia. E a bola? Rolou morro abaixo e foi se alojar lá nos arbustos, a uns cinquenta metros de distância. Lado esquerdo acionado – fácil, desço rapidinho e recupero a bola.

As coordenadas estavam claras – grama tipo tapete, encharcada, inclinação da encosta- 25%, tênis com sola de borracha, só eu não montei a equação...morte anunciada!


Rolei pela encosta indo parar, por sorte, abraçada a uma árvore. Me lembrei bastante da emoção da atual senadora abraçando a goiabeira, e quase gritei - Aleluia! Com o máximo de cuidado, me levantei apoiando as costas na árvore, na tentativa de firmar os pés no que mais parecia uma mousse de chocolate ao redor do tronco. Como sair dali? Arrisquei algumas tentativas de iniciar a subida, mas não havia nenhuma reentrância, nenhuma pedra naquela grama que pudesse fazer o papel de um degrau. Por sorte havia o anteparo da árvore para evitar que eu continuasse escorregando até os arbustos e voasse do barranco.


Local deserto, ninguém à vista e muito menos, à escuta. Como era de se esperar, eu estava sem o celular, portanto nem ligar para algum socorro eu podia. Acho que se passaram uns quarenta minutos até que eu conseguisse ter uma ideia ridícula, porém brilhante! Quebrei dois tocos de um galho da árvore, me ajoelhei e fui subindo de gatinhas, fincando o toco na grama – um lado de cada vez, o corpo sendo praticamente içado morro acima. Quando consegui chegar em terra firme, enlameada até os ossos, só pude sentar e soltar uma gargalhada, pois uma coisa é certa – tentar buscar essa bola no barranco era morte anunciada!

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1 Comment


luciliarchaves
Jul 24, 2023

Que delicia de crônica!!! Quem nunca…???? kkkkkk

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