O que fica fora da foto
- há 2 dias
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Já repararam como a gente anda vivendo tudo… com o braço esticado?
O pôr do sol acontece — e lá estamos nós, tentando enquadrá-lo.
Uma risada explode — e alguém já procura o celular.
O momento chega inteiro, mas a gente o recebe pela metade.
Não é que faltem sentidos. Eles continuam todos aqui: ver, ouvir, tocar, sentir cheiro, provar. Mas, na prática, parece que elegemos um só — e ainda assim, mediado por uma lente.
A cena não passa mais direto pela gente. Antes, precisa caber na tela.
E aí acontece uma coisa curiosa: quanto mais a gente tenta guardar o momento, menos ele parece nos atravessar de verdade. O pôr do sol vira registro. O sorriso vira conteúdo. O encontro vira material.
A gente não olha — enquadra.
Não presencia — captura.
Não participa — publica.
E, nesse movimento quase automático, alguma coisa se perde.
Talvez a distração do vento, o calor do instante, o detalhe que não caberia na foto, mas que era justamente o que fazia tudo valer a pena.
Há sempre um ajuste a fazer: o ângulo, a luz, a pose, a versão de nós mesmos que vai aparecer depois. Porque, no fim, a imagem não é só do momento — é também sobre quem a gente parece ser dentro dele.
E assim, aos poucos, vamos nos afastando.
Sem sair do lugar.
Viramos uma espécie de intermediários da própria experiência. Nem totalmente dentro, nem completamente fora. Apenas ocupados em garantir que tudo fique… registrável.
E curioso: pelas lentes do celular, quase sempre saímos bem.
Talvez melhor do que estávamos.
Mas fica a dúvida — em que momento foi que começamos a preferir a lembrança editada à experiência vivida?

A escritora logrou a mais profunda radiografia das relações humanas da atualidade. Aplausos de toda la platea!
Adorei! As coisas estão mudando muito depressa. Me sinto feliz por ter na memória tantas lembranças da época em que não vivíamos na telinha Ana Helena. Parabéns!!