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O Botox da Monalisa

há 18 horas
2 min de leitura

O sorriso é universal. Nascemos sabendo fazê-lo e, dizem, reconhecê-lo. Uma espécie de língua materna que dispensa palavras, tradutores e legendas.

Mas nem todo sorriso é confiável.

Há os que acolhem, os que seduzem, os que disfarçam. Há os que chegam antes da pessoa e os que ficam depois que ela vai embora. Um sorriso pode ser convite, despedida, deboche ou ameaça. Às vezes, basta um canto da boca para estragar o dia de alguém.

E há aquele sorriso que ninguém sabe muito bem o que quer dizer. O da Monalisa, por exemplo. Há séculos, especialistas tentam decifrá-lo. Talvez ela esteja feliz. Talvez saiba de alguma coisa que nós não sabemos. Ou talvez tenha acabado de descobrir que não precisa mais franzir a testa.

A ciência, sempre interessada em meter o nariz onde não é chamada, descobriu que sorrir faz bem. Mesmo quando a vontade é de mandar alguém para aquele lugar.

Experimente. Diante de uma cara atravessada, devolva um sorriso. Não precisa ser sincero. O cérebro, esse sujeito crédulo, pode acreditar na encenação e nos devolver um pouco de alegria. Serotonina, dopamina, essas coisas que fazem a vida parecer menos áspera.

Um sorriso pode, portanto, mudar o humor. O nosso e, quem sabe, o de quem está do outro lado.

Mas há um detalhe.

Para sorrir, precisamos de músculos. E alguns deles andam sendo convidados a tirar férias prolongadas.

O botox chegou para suavizar as rugas, apagar os sinais do tempo e, de quebra, congelar algumas expressões. A testa fica lisa, os olhos descansam, os cantos da boca obedecem. Tudo no devido lugar.

Menos os sentimentos, que não receberam o memorando.

Acontece que o rosto não é apenas uma vitrine das emoções. Ele também participa da conversa. Quando sorrimos, há uma troca entre o que sentimos e o que mostramos. Se os músculos ficam paralisados, essa conversa pode perder um pouco da espontaneidade.

Não é que o botox transforme alguém numa estátua emocional. Mas talvez o cérebro sinta falta de alguns gestos que costumavam lhe contar histórias.

E eu fico pensando na Monalisa.

Será que ela sorri porque está feliz? Porque está escondendo alguma coisa? Ou porque, depois de tantos séculos posando, descobriu que a melhor maneira de conservar a expressão é não se mexer?

Afinal, o tempo deixa marcas. Algumas no rosto, outras na memória. Há rugas que contam histórias e outras que denunciam noites maldormidas, sustos, gargalhadas e até aquela mania de franzir a testa diante de certas notícias.

Podemos suavizá-las. Podemos até tentar apagá-las.

Mas, se a estética nos deixar sem expressão, corremos o risco de ficar com uma cara ótima e um repertório emocional reduzido.

E aí, diante de um sorriso enigmático, como o da Monalisa, talvez a pergunta já não seja o que ela está sentindo.

 

Talvez seja: será que ela ainda consegue sorrir?

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há 11 horas
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Muito bom "O Botox da Monalisa", Ana Helena. Abraço


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