O Botox da Monalisa

O sorriso é universal. Nascemos sabendo fazê-lo e, dizem, reconhecê-lo. Uma espécie de língua materna que dispensa palavras, tradutores e legendas.
Mas nem todo sorriso é confiável.
Há os que acolhem, os que seduzem, os que disfarçam. Há os que chegam antes da pessoa e os que ficam depois que ela vai embora. Um sorriso pode ser convite, despedida, deboche ou ameaça. Às vezes, basta um canto da boca para estragar o dia de alguém.
E há aquele sorriso que ninguém sabe muito bem o que quer dizer. O da Monalisa, por exemplo. Há séculos, especialistas tentam decifrá-lo. Talvez ela esteja feliz. Talvez saiba de alguma coisa que nós não sabemos. Ou talvez tenha acabado de descobrir que não precisa mais franzir a testa.
A ciência, sempre interessada em meter o nariz onde não é chamada, descobriu que sorrir faz bem. Mesmo quando a vontade é de mandar alguém para aquele lugar.
Experimente. Diante de uma cara atravessada, devolva um sorriso. Não precisa ser sincero. O cérebro, esse sujeito crédulo, pode acreditar na encenação e nos devolver um pouco de alegria. Serotonina, dopamina, essas coisas que fazem a vida parecer menos áspera.
Um sorriso pode, portanto, mudar o humor. O nosso e, quem sabe, o de quem está do outro lado.
Mas há um detalhe.
Para sorrir, precisamos de músculos. E alguns deles andam sendo convidados a tirar férias prolongadas.
O botox chegou para suavizar as rugas, apagar os sinais do tempo e, de quebra, congelar algumas expressões. A testa fica lisa, os olhos descansam, os cantos da boca obedecem. Tudo no devido lugar.
Menos os sentimentos, que não receberam o memorando.
Acontece que o rosto não é apenas uma vitrine das emoções. Ele também participa da conversa. Quando sorrimos, há uma troca entre o que sentimos e o que mostramos. Se os músculos ficam paralisados, essa conversa pode perder um pouco da espontaneidade.
Não é que o botox transforme alguém numa estátua emocional. Mas talvez o cérebro sinta falta de alguns gestos que costumavam lhe contar histórias.
E eu fico pensando na Monalisa.
Será que ela sorri porque está feliz? Porque está escondendo alguma coisa? Ou porque, depois de tantos séculos posando, descobriu que a melhor maneira de conservar a expressão é não se mexer?
Afinal, o tempo deixa marcas. Algumas no rosto, outras na memória. Há rugas que contam histórias e outras que denunciam noites maldormidas, sustos, gargalhadas e até aquela mania de franzir a testa diante de certas notícias.
Podemos suavizá-las. Podemos até tentar apagá-las.
Mas, se a estética nos deixar sem expressão, corremos o risco de ficar com uma cara ótima e um repertório emocional reduzido.
E aí, diante de um sorriso enigmático, como o da Monalisa, talvez a pergunta já não seja o que ela está sentindo.
Talvez seja: será que ela ainda consegue sorrir?



Muito bom "O Botox da Monalisa", Ana Helena. Abraço