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Os jardins de Áurea

O ambiente cheirava a alfazema, misturada com os odores da roupa de cama que havia sido trocada e esperava, ali no cesto, para ser recolhida e entregue à lavanderia.


Áurea já estava pronta para receber as visitas da tarde. Usava o vestido estampado mais elegante do guarda-roupas, apesar de não ser a opção que gostaria de colocar para esse evento. Sentiu o cabelo sendo preso por elástico no alto da cabeça. Indefesa, agradeceu por não haver espelhos no local. Lá no escuro das lembranças, preferiu se ver naquele pretinho básico, desfilando pelos corredores com ares de Bonequinha de Luxo, como Audrey Hepburn. Queria afastar a lágrima que ameaçava escorrer em direção ao pescoço, mas era impossível. Conformada, fechou os olhos e abriu a fechadura de seu jardim das maravilhas.


Nesse instante entrou Carlota, com seu relógio pendurado no pescoço. Nas mãos, um copo d’água e a sequência de remédios amargos que deveria tomar nesse horário. Com o olhar absorto, nas pupilas enevoadas de Áurea surgiu a figura do coelho branco a lhe oferecer os copinhos. A cada gole o gosto de torta de cerejas, de caramelo, de creme de leite, de torradas amanteigadas. Um fio do líquido deslizou para fora de sua boca trêmula, aparado de imediato pelas luvas do coelho branco.


Tudo pronto, Áurea se deixou levar para o salão onde balões vermelhos e cadeiras alinhadas rente às paredes a esperavam. Aos poucos, os espaços foram sendo ocupados por vultos de fisionomia pálida, olhar inexpressivo, silenciosos, apáticos. Imobilizada em seu lugar de honra, passeou os olhos pela plateia, em busca de algum sinal familiar naqueles rostos. Nem um único lampejo.


O chá começou a ser servido aos residentes, cada qual com sua porção, cada qual no seu canto, resignados. Quem lhe ajudava era um rapaz magro, de longos cabelos encaracolados que mantinha presos por um boné. Dentes brancos sempre à mostra, com algumas falhas escuras que lembravam um teclado de piano. Seu olhar impaciente, enquanto lhe colocava um canudinho no canto da boca, queimava mais do que o chá pelando que descia pela garganta. Ele precisava que Áurea terminasse rápido, para passar a atender o próximo da fila. Meio adormecida pelo calor da bebida, ela se viu no chá da casa dos loucos frente ao Chapeleiro, com seu relógio preso na lapela, a lembrar que o tempo não gosta de ser marcado.


Voltou os olhos, então, para os balões vermelhos que pendiam do teto. Hipnotizada por seu balanço pendular, começou a rodopiar pelos salões de baile de sua memória. O tempo brincava com seus retratos amarelados - ora ela adolescente, ora a filha se casando, ora ela no colo dos pais, ora as brincadeiras com os netos. Tempos em que a vida resplandecia, de fora para dentro.


E veio o tempo em que, numa virada do ponteiro, a ordem da Rainha foi dada: cortem sua cabeça! Nenhum movimento restou, só as pupilas escuras, insondáveis, opacas. Sua chave para o túnel que a leva ao jardim dos sonhos. Lá, onde tudo é luz, onde tudo se reveste de cores, perfumes, sabores.


De volta ao quarto, Áurea foi colocada em sua cadeira perto da janela. O cair da tarde deixava entrar os últimos raios de sol de outono, que refletiam em seus olhos. Ela se viu diminuindo de tamanho e saiu a voar com o pequeno beija-flor que batia no vidro à sua procura, livre, feliz, em paz.

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