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Polissonias Harmônicas

Sentada um pouco de lado no banquinho do piano, Luana dedilhava, displicentemente, o solo de abertura de Bluishmen. O ensaio com a orquestra seria logo mais, e ela precisava se concentrar, dar a última revisada na partitura e fazer seu aquecimento. Colocou a gravação do dia anterior para tocar e, no compasso dos acordes, foi massageando dedo por dedo.


Os sons do sax barítono, combinados aos do trompete, da clarineta e do piano – responsáveis pela polirritmia que caracterizou a composição de Moacir Santos – penetraram em suas veias como uma descarga elétrica. A percussão, de raízes afro-pernambucanas, executada pelos atabaques e pela bateria, revolveu suas lembranças ancestrais. A atmosfera mística, provocada pela cadência dessa peça, despertou em Luana os timbres dissonantes de sua própria existência.


Esse seria o último concerto antes da turnê internacional da orquestra, oportunidade que esperou ter desde que começou a tocar. A cada minuto, sua angústia se agigantava; o corpo a tremer, a mente em desalinho. Tinha que focar no hoje, se preparar para o concerto, mas o pensamento voava para o que seria o amanhã.


Vieram à tona lembranças de sua infância de menina preta, pobre, vivendo na periferia de Recife. A música sempre presente nas rodas de cantoria. A emoção do primeiro concerto de música erudita ao ar livre, estopim da paixão que mudou sua vida. Olhos esbugalhados, ouvidos atentos e um sentimento tal de completude, que ser pianista passou a ser o seu objetivo, mais do que qualquer outra coisa nesse mundo.


Um piano emprestado, as economias dos pais, o apoio de vizinhos, e lá foi a menina Luana estudar no conservatório. Talento, dedicação, sorte, ajuda de benfeitores, tudo junto e misturado; de conquista em conquista lá está ela, agora, prestes a seguir uma carreira internacional.


Sabe que, se for, abrirá mão de uma parte de si mesma, de suas raízes, seu lado emocionalmente mais significativo – será capaz de suportar esse rompimento? Por outro lado, descartar esse convite é desistir de um sonho, abandonar o futuro de sucesso profissional que a ela se oferece, de braços abertos. Não abraçar essa oportunidade fora do Brasil é como uma peça sinfônica interrompida justo no último movimento.

Os trinados ao piano fazem ecoar, lá no fundo de sua alma, as cantigas de roda das noites de menina descalça, sob o luar da Praça Rio Branco. A entrada dos instrumentos de sopro são como bandeirolas, voando durante os festejos de São João de Caruaru. Nos acorde finais, o som dos atabaques despertam em Luana a sonoridade do frevo, tão dissonante em Bluishmen quanto será sua vida, desconectada desse universo.


Moacir Santos conseguiu resolver a harmonia de sua composição bem como o destino de sua arte – e ela, conseguiria?

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