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Presente do Sinhô

Rosto envelhecido na terra vermelha da lida no campo. Corpo marcado das correntes atadas no tronco. Passos cansados, lentos, sofridos. Assim segue João Donato Limeira, negro alforriado. Traje de gala, para a foto do documento. Passe de cidadão livre, que nasce aos cinquenta anos. Ganhou Limeira no nome, agora constituído.


Paletó marrom, surrado, como o corpo que abriga. Presente do sinhô, não tinha mais serventia. Camisa alva, quarada no sol, orgulho de pobre decente. Gravata de lenço estampado, deixada no lixo do cesto. Lá vai João Donato Limeira, para o lambe-lambe da praça. Tripé armado no coreto. Máquina-caixote de couro, mágica escondida no pano preto. João Donato, cabelos cortados. Rosto barbeado. Lábios cerrados. Olhar embaçado. Registrado.


Emancipado cidadão, lá segue o João. Emprego na cidade, no campo não quer mais não. De porta em porta, chapéu na mão. Aceita qualquer labuta, por um teto e um pedaço de pão. Roça a grama, semeia a horta, alimenta a criação, sossego pro seu patrão. Tudo em vão. Negro velho ninguém quer em casa – alforriado, não.


Sobe desce ladeira, João Donato Limeira. Negro forro vagando, sem eira nem beira. Noite alta, cidade baixa. Abrigo no beco, refúgio no canto seco. Mala de couro, seu tesouro. Chapéu de feltro, camisa branca, costume marrom. Uma pilastra para encostar, outro dia para pelejar.


Burburinho na calçada, tamborete, banquinho, pano de lustrar. Cada qual no seu posto, a engraxar. Graxa preta na mão, lá vem um tostão. Senta coronel, oficial, sai monsenhor, mercador. Final da jornada, féria contada. Prato na mesa, trago no balcão.

João Donato olha as mãos, por que não? Ofício de engraxate, honrado, sem patrão. Tem documento com foto, costume marrom, pode marcar posição. Na ladeira dos engraxates, da Avenida São João.


Crônica escrita durante o módulo Mosaico Santa Sede 2022

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