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Quando o algoritmo falha

  • há 20 horas
  • 1 min de leitura

Dizem que, com duas ou três perguntas certas, dá para entender quase qualquer pessoa.  

E se bastasse uma?

Numa conversa dessas que começam em qualquer assunto e terminam em nenhum, alguém lançou a pergunta:

— Você é mais gato ou cachorro?


A mesa se dividiu rápido. Teve quem respondeu sem pensar, quase ofendido com a dúvida. Teve quem hesitou, como se estivesse prestes a revelar um traço de caráter.

Achei curioso.

Porque, no fundo, ninguém ali falou de bicho nenhum.


Os “cachorros” eram fáceis de reconhecer. Chegam perto. Encostam. Confiam antes mesmo de saber. São de riso aberto, de presença inteira, de lealdade quase automática — dessas que às vezes atropelam o próprio bom senso.


Os “gatos” não. Esses medem a distância. Observam antes de se oferecer. Têm um certo gosto pelo silêncio, pela independência, pelo território próprio. Aproximam-se quando querem — e isso, curiosamente, faz com que a aproximação valha mais.


Não precisou de teste, nem de algoritmo, nem de análise profunda. Bastava a pergunta.

Simples assim.

Ou quase.


Porque, no meio da mesa, alguém — talvez mais honesto que o resto — disse:

— Eu acho que sou os dois.

E aí complicou.


Fiquei lembrando de CatDog, aquele desenho antigo: um corpo só, duas naturezas incompatíveis tentando coexistir. Um puxando pra um lado, o outro pro oposto. Um querendo festa, o outro querendo silêncio.


Talvez seja isso.

No fim das contas, a gente não escolhe entre gato e cachorro.

A gente negocia.

Todos os dias.


Entre o impulso de chegar abanando a vida e a vontade de desaparecer sem dar explicação.

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