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Se não fosse Eva o mundo seria tão chatinho, não?

Não tenho nenhuma dúvida disso! Há muitos anos me deparei com um exercício de aquecimento, no início de um curso na USP, que exemplificou de forma magistral a necessidade de existirem Evas nesse mundo. E não estou falando da privação de prazer que isso causaria aos nossos queridos Adões. O buraco é mais embaixo, ou a questão é mais ampla, para não gerar uma interpretação maliciosa.

Naquela aula inicial, foi dada aos mestrandos a tarefa de ir até o refeitório e, na volta, relatar perante a classe o que tinham observado. Simples assim.

Lá fomos nós, cada um com sua prancheta, anotar o que víamos no refeitório. Éramos um grupo composto de homens e mulheres, a maioria advindos de graduações em administração, economia, direito e engenharia. Carregávamos, orgulhosos, uma boa bagagem de conhecimento e a expectativa em relação a esse curso, que pela temática seria bastante desafiador, era enorme. Ao nos deparamos com uma tarefa quase pueril como a que foi proposta o espanto foi geral.

A missão demorou poucos minutos. De volta à sala de aula, cada um leu suas anotações enquanto o mestre, meio sentado na ponta da bancada do professor, óculos caídos no bico, sorria sorrateiramente. Fez ele mesmo as próprias anotações enquanto falávamos e, ao final da constrangedora apresentação que, para nós, mais se assemelhava a uma chamada oral do ensino infantil, foi para a lousa (ainda existente) e rabiscou sua avaliação.

Nós ali, constrangidos, imaginando qual seria o critério avaliativo. Um pequeno zum zum corria pela sala, as pessoas já se questionando se teriam escolhido o curso correto. Ponderavam que esse professor era tido em ótima conta, tanto no meio acadêmico como profissional. Como, então, questionar sua proposta para uma aula introdutória? Resignados, aguardamos.

E assim foi. No quadro-negro, nada de notas ou coisa assim. Somente uma lista com o resumo do que tinha sido observado, dividida por perfil de aluno. Nessa qualificação, um único critério – o que havia sido colocado pelos Adões versus as anotações das Evas .

Adões:

- Salão com aproximadamente 12 m2.

- Paredes pintadas de branco, ladrilhos atrás do balcão de inox.

- Quatro mesas retangulares com aproximadamente 1,5 x 1,5 metros, com quatro cadeiras de plástico.

- Luminárias de teto retangulares com lâmpadas fluorescentes.

- Dois Janelões com esquadrias de alumínio.


Evas:

- Refeitório cheio, diferentes grupos de pessoas almoçando.

- Idade média em torno de vinte anos, um pouco mais de meninos do que meninas.

- A maioria sentados, provavelmente no esquema de compartilhamento das mesas, visto que não havia lugar para todos.

- Algumas pessoas comendo em pé no balcão, nesse caso um lanche rápido ou só café.

- Entrosamento entre o pessoal do serviço e os clientes, esses alunos devem ser frequentadores assíduos.

- Clima bastante animado, conversa alta, muita risada.


A primeira reação da sala foi de silêncio. Depois de nos entreolharmos, soltamos uma solene gargalhada!


PS: o curso de semiótica foi excelente, abrilhantado pela criatividade didática do mestre.

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