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A copa das geladeiras

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Existem fenômenos que a ciência ainda não conseguiu explicar.

As pirâmides do Egito.

A matéria escura.

O motivo pelo qual abrimos a geladeira durante os jogos da Copa do Mundo.


O melhor é que todo mundo faz isso. Se você está assistindo a Copa do Mundo com um grupo em sua casa, veja bem se não é assim mesmo.


O jogo está empatado, faltam três minutos para acabar, o atacante avança pela direita, o estádio inteiro prende a respiração... e quem está no meio do sofá empurra os outros e se levanta para verificar se, por acaso, surgiu um pedaço novo de queijo desde a última inspeção realizada há exatos quatro minutos.


Outro, torcedor fanático, rói as unhas.


A amiga, que não entende nada de futebol, caminha pela sala torcendo as mãos. Independentemente do método escolhido para lidar com a tensão, mais cedo ou mais tarde todos acabam diante da geladeira.


Lógico que são pessoas íntimas, mas, em circunstâncias normais, nenhum deles mantém uma relação tão próxima com a minha Samsung Duplex.

Quanto mais decisivo o jogo, mais frequentes as visitas.


E tem inserções específicas por perfil:

  • O fiscal de refrigerante, que conta quantas latinhas ainda sobraram;

  • o explorador de potes, que abre recipientes à procura de algo que não sabe nem dizer o que;

  • o supersticioso, que procura por um raminho de quatro folhas na gaveta de hortaliças;

  • e o peregrino da luz branca, que apenas contempla o interior da geladeira em silêncio, como quem procura respostas existenciais entre a margarina e o pote de azeitonas.

 

Na final da Copa, a porta da geladeira passa mais tempo aberta do que fechada.

Talvez a Copa não revele apenas como torcemos.

Revele como esperamos.

Porque diante da ansiedade, da incerteza e dos noventa minutos que parecem eternos, fazemos o que os seres humanos sempre fizeram: procuramos conforto.


Alguns encontram na fé. Outros na estatística.

Nós, brasileiros, procuramos na geladeira.

E, quase sempre, encontramos apenas a mesma garrafa de água que já estava lá no primeiro tempo.


Mas voltamos.


Porque a esperança, assim como a Copa, é uma coisa que se alimenta sozinha.

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