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Cântico

há 22 horas
1 min de leitura

“Ninguém me diga: vem por aqui.”


Preciso traçar meus próprios caminhos,

vencer os penhascos, aos tropeços,

me lançar por trilhas inesperadas.

Ser ovelha é uma pele que não me pertence.

Prefiro ser cabra-montês,

galgando penhascos tortuosos e solitários,

onde o vento fresco assobia

e a vista se alonga à procura de novas trilhas.

 

Minha vida se desprendeu do varal,

rodopiou pela vizinhança em turbilhão,

como uma pipa multicolorida,

a rabiola se retorcendo em busca de novos ventos.

Por vezes, tombada ao chão,

parecia perder o rumo.

Mas outra ventania a arrebatava

e ela se erguia em busca de novos voos.

 

Uma onda invadiu minha praia,

trazendo a espuma branca e efervescente da esperança.

Batizou meu corpo com seu sal,

me brindou com a sabedoria das marés:

chegadas e partidas que deixam na areia

os desenhos de sua passagem.

 

Pois a hora do sim é um descuido do não.


Não sei por onde vou.

Não me pergunte.

Meu caminho vai sendo traçado durante a jornada,

sem mapa, sem bússola,

guiado apenas por um pulsar

que me faz mudar de rumo nas encruzilhadas da vida.

 

Não sei para onde vou.

Vou pela vida afora

e me surpreendo a cada chegada.

Me encanto, desfruto.

Se desencanto?

Sigo a marcha.

Sem pressa,

tocando os dias,

em busca do pote de ouro no fim da estrada,

que só meus olhos conseguirão reconhecer.

 

Portanto…

 

“Ninguém me diga: vem por aqui.”

Pois uma certeza eu tenho:

Sei que por aí não vou!

 

Texto inspirado no poema “Cântico Negro”, de José Régio.

 

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