A vida tem sempre razão...

É no cair do sol que a vida nos convida, quase sem pedir licença, a revisitar páginas passadas.
Contemplamos a luz que se esvai e, enquanto ela desaparece devagar, as lembranças começam a faiscar. Por alguns instantes, pincelam nosso tecido afetivo com outras cores — tonalidades que talvez não soubéssemos enxergar antes.
As dobras cinzentas das amarguras, aquelas que emboloraram com o passar dos anos, aparecem agora pontilhadas de rosa.
Estranho isso.
Pequenas partículas de luz encontram gestos de ternura que não soubemos reconhecer. Palavras que ficaram por dizer. Afetos escondidos atrás de silêncios. E, sobretudo, a descoberta tardia de quanto bem-querer havia por baixo da armadura que vestimos para nos proteger.
Talvez tenhamos passado boa parte da vida confundindo proteção com distância.
E então vem a vaidade.
A purpurina com que nos enfeitamos — o sucesso, os aplausos, aquilo que um dia pareceu tão importante —, sob a luz do sol poente, torna-se quase transparente.
E percebemos sua fugacidade.
Sem a purpurina, resta o tecido.
O simples tecido de algodão alvejado pela vida, que volta a mostrar sua verdadeira cor: a cor da humildade.
É com ela que, cedo ou tarde, haveremos de fazer a passagem para outro plano de existência.
Também há os rasgos.
Aqueles que provocamos, sem querer ou querendo, na toalha de mesa das amizades.
Rasgos feitos por palavras impensadas, ausências, orgulho, desencontros.
Mas é curioso como a luz também atravessa os rasgos.
E, quando passa por eles, ilumina o que ainda pode ser cerzido.
Talvez o arrependimento não seja apenas uma dor.
Talvez seja também uma linha.
Uma linha fina, quase invisível, que nos ensina a costurar aquilo que ainda há tempo de recuperar.
Porque há sempre alguma coisa que pode ser remendada.
Um pedido de perdão.
Um abraço.
Uma palavra.
Um gesto pequeno, desses que chegam tarde, mas chegam.
E, quando a lua desponta, seus primeiros clarões se misturam aos últimos raios de sol.
Os fios prateados da velhice também se misturam.
No rosto, desenham uma espécie de vermelho plácido, quase silencioso, como se a própria vida nos dissesse que já não é preciso correr.
O brilho vai se despedindo devagar.
Sem pressa.
Sem ansiedade.
E talvez seja justamente nessa hora — entre o que fomos e aquilo que já não precisamos ser — que começamos a compreender.
Compreender que algumas perdas foram caminhos.
Que certos desencontros nos ensinaram a encontrar.
Que algumas dores precisaram amadurecer antes de revelar o que tinham vindo nos ensinar.
E que nem tudo precisa ser explicado.
Algumas coisas precisam apenas ser aceitas.
Então ficamos ali, sob a luz mansa da lua, recolhendo aquilo que a vida deixou em nós.
Os afetos.
Os erros.
Os remendos.
As cicatrizes.
A humildade.
E esse estranho, delicado aprendizado de que, apesar de tudo...
a vida tem sempre razão.


Desejável, ainda que triste…
Me identifiquei! Lucilinha. Bj