top of page

Fragilidades Humanas

  • há 4 dias
  • 1 min de leitura

Todos nós temos um talento especial para dar nomes elegantes aos nossos defeitos.


A preguiça vira "cansaço acumulado". A teimosia atende por "firmeza de convicções". O excesso de compras costuma ser tratado como "aproveitar uma oportunidade imperdível". E ninguém jamais admitiu ter sido fofoqueiro; no máximo, estava "bem-informado".


Foi pensando nisso que me deparei com um documento capaz de elevar essa arte a outro patamar. Em um site especializado encontrei o testamento de um Monsenhor, datado de 1863. Depois das fórmulas de praxe — estar em perfeito juízo, temer a morte em hora incerta, professar a fé católica e desejar nela viver e morrer — surge a seguinte declaração:


"Declaro que, por fragilidade humana, tenho sete filhos (7) já reconhecidos e legitimados por carta imperial."


Sete.


Não um deslize momentâneo. Não um episódio isolado. Sete filhos devidamente reconhecidos, legitimados e registrados para a posteridade.


O mais curioso não é sequer a existência da numerosa descendência, mas a explicação escolhida. Enquanto alguns de nós classificamos como fragilidade humana devorar a última coxinha da festa ou comprar um sapato desnecessário em liquidação, o Monsenhor trabalhou em outra escala.


E o melhor vem depois: ele passa a relacionar os herdeiros um por um, como quem apresenta com legítimo orgulho os resultados de sua fragilidade.


Confesso que achei difícil não admirar a sinceridade do homem. Afinal, se era para assumir a fraqueza, assumiu com método, persistência e excelente produtividade.


Talvez por isso eu tenha lembrado de um trecho bíblico que parece combinar perfeitamente com a situação: "Se devo orgulhar-me, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza."


Nesse quesito, convenhamos, o Monsenhor tinha material de sobra.

Posts recentes

Ver tudo

2 comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
luciliarchaves
30 de jul. de 2022

Um tio do papai que morou muitos anos na fazenda comentava com muita naturalidade sobre as pessoas que “eram filhos(as) do padre!!!! coisas que na vida da cidade grande nunca ouvia falar.

Curtir
Membro desconhecido
31 de jul. de 2022
Respondendo a

O mais gozado dessa história é que descobrimos uma realidade familiar!!!

Curtir
Publicações

©2021 por Pincel de Crônicas

bottom of page