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Pandora

Certo dia resolvi organizar as fotos que ficavam naqueles albunzinhos que as Fotóticas da vida ofereciam junto com os filmes revelados, da época em que se revelava fotografia e colocava em álbuns. Foram guardados numa grande caixa, esperando o dia em que eu ia me dispor a organizar.


O tempo passou, não fiz isso quando deveria ter feito e, agora, essa se tornou uma Caixa de Pandora. De vez em quando olho para ela, pensando se gostaria ou não de abri-la. Lá estão registrados anos e anos da vida, que de certa forma, ao serem guardados nessa caixa, ficaram congelados.


Me dei conta de que fotos em papel impactam diferente na gente. Quando tudo passou a ser digital, parece que nossa memória também digitalizou, e as fotografias passaram a ocupar outro espaço, menos emocional, longínquo, o espaço virtual.


Nesse plano digital estão álbuns mais recentes, que podem conter momentos parecidos e com as mesmas pessoas que estão nos antigos registros de papel, mas a nossa relação com eles parece ser diferente, mais distante. As fotos digitais parecem não fazer parte de nós e sim de uma plataforma - elas habitam fora de nós, em uma nuvem. Esse distanciamento nos possibilita facilmente deletar, corrigir, cortar, criar outros contextos para os momentos ali retratados.


Se algo desagrada, ou traz uma lembrança indesejada, com um clique está tudo resolvido e nem nos lembramos mais de que, um dia, esses momentos foram captados, registrados. Já as fotos em papel não. Eliminá-las exige rasgar, queimar, colocar no lixo, sei lá. E isso é um processo cirúrgico dolorido.

Se desfazer de flagrantes do passado que hoje não são mais significativos, da fisionomia de pessoas que não deixaram marcas - hoje são praticamente estranhas – dá uma sensação de sacrilégio. É como se esses retratos tivessem vida própria, não nos pertencessem e sim à nossa história.


A digitalização, no fundo, desumanizou esses relatos, criou um espaço confortável entre nós e aquilo que está na tela, para que pudéssemos ir ceifando, sem dó nem piedade, tudo aquilo que incomoda, que não faz mais sentido e, assim, compor o álbum com a história que gostaríamos de contar.


Mas as fotos em papel criam vida, e não há como apagar a história que contam. Elas ficam ali, naquela Caixa, como guardiãs fiéis do nosso passado.

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