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O que veio para ficar ...

Foram quase quatrocentos dias andando praticamente descalça. Calçar sapatos para que? as caminhadas eram feitas de tênis. Nas visitas ao pequeno grupo de pessoas com quem me relacionava, por precaução usava os protetores de sapato, ou colocava pantufas. O mais adequado, então, era usar mesmo uma rasteirinha. E assim fui indo, me acostumando à mudança, relaxando; os pés esborracharam como massa de pão quando fermenta.

E agora? Convidada para o baile, logo pensei na Cinderela. Será que vou conseguir achar o meu sapato de cristal? Fui ao seu encalço, retirando o que estava adormecido na sapateira: — O preto de salto 6 ½? Nem pensar. Depois de tanto tempo ao rés do chão, o resultado seria um tombo logo na chegada ou, se conseguisse me manter no alto o tempo todo, o dia seguinte seria com os pés na salmoura. Esse não seria o meu par.

— A sandália de com salto fino? Nem experimentei, com medo da massa transbordar por entre as tirinhas e não conseguir mais descalçar sem fazer um estrago. Descartado direto.

— Aquele beije clássico? O outro prata de bico fino? Ou o marrom de pelica? Fui repassando um a um, e acabei sentada no chão, rodeada de sapatos.

Me dei conta de que nenhum deles poderia ser o par do meu sapato de cristal, pois não foram só os pés de Cinderela que mudaram pós Pandemia. Descer do salto, sentir o chão, me fez mais feliz como Gata Borralheira, tecendo os retalhos da minha roupagem com aquilo que me faz sentido.

Olhei ao redor e percebi que minha sapatilha de cristal esteve sempre ali, entre os livros e pincéis que me acompanharam durante os quatrocentos dias.

Calcei e fui para o baile da vida.

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