Se não fosse Eva, o mundo seria bem chatinho, não?
- há 11 horas
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Não tenho muita dúvida disso.
Descobri isso num daqueles exercícios de aquecimento — início de curso, USP, todo mundo cheio de currículo, expectativa e certa arrogância bem disfarçada.
O professor entra, olha pra gente e solta:— Vão até o refeitório e depois me contem o que viram.
Só isso.
Lá fomos nós, prancheta na mão, prontos para decifrar o mundo — ou, no mínimo, um bandejão. A tarefa era tão simples que chegou a ser ofensiva. Mestrandos, afinal.
Voltamos em poucos minutos, cada um com suas anotações muito bem organizadas, e começamos a leitura. Um a um. Em voz alta. O professor, meio sentado na bancada, óculos escorregando no nariz, anotava tudo com um sorriso que já dizia alguma coisa — mas a gente ainda não sabia o quê.
Quando terminamos, ele foi até a lousa — sim, lousa — e escreveu o resumo da turma. Sem notas, sem comentários. Só uma divisão:
Adões e
.
E aí veio a revelação.
Adões: Salão com aproximadamente 12 m².– Paredes brancas, ladrilhos atrás do balcão de inox.– Quatro mesas retangulares de cerca de 1,5 x 1,5 m, com cadeiras de plástico.– Luminárias de teto com lâmpadas fluorescentes.– Dois janelões com esquadrias de alumínio.
Evas: Refeitório cheio, grupos de pessoas almoçando.– Idade média por volta dos vinte anos, ligeiramente mais homens que mulheres.– Mesas compartilhadas, gente dividindo espaço.– Alguns comendo em pé no balcão — lanche rápido, café.– Familiaridade entre clientes e funcionários.– Ambiente animado: conversa alta, risadas.
Silêncio.
Aquele silêncio raro, em que todo mundo entende ao mesmo tempo — e preferia não entender.
Depois, claro, a gargalhada. Solene, quase terapêutica.
Desde então, tenho um respeito enorme pelas Evas.
Alguém precisa, afinal, contar o que realmente está acontecendo.
PS: o curso de semiótica foi excelente. O professor, melhor ainda.


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