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Cansaço miúdo

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Ele fazia questão de enrolar as grandes meias em pequenas bolinhas para guardar na grande gaveta do pequeno armário.


Organizava tudo com zelo: bolinhas de grandes meias alinhadas aos globos das pequenas, como se cada par soubesse exatamente o seu lugar — e ousasse não saber.


As meias usadas iam para pequenas cestas na lavanderia. Esperava recebê-las limpas, enroladas, devolvidas aos seus lugares com a mesma precisão com que haviam saído.


 Pequena tarefa que atribuía à grande dona-de-casa com quem considerava ter se casado.


As pequenas argumentações da esposa, a respeito do grande inconveniente, eram tratadas como desvios — e, como tais, corrigidas.

A pequena esposa, munida de grande paciência — essa virtude que se elogia mais em quem suporta do que em quem provoca — encarava a pilha de bolinhas de meia com um pequeno mau humor que já não fazia tanta questão de esconder.


Desenrolava uma a uma para lavar no tanque, sentava-se no banquinho da cozinha e pensava — afinal, o que é uma pequena mania, perto do grande marido com quem me casei?


Às vezes, ao devolver uma gaveta “quase” perfeita,

  ele refazia uma ou outra bolinha em silêncio.


 Não por implicância, diria — mas por princípio. Aos poucos, o grande marido foi se tornando um pequeno maníaco


E a pequena esposa foi deixando de diminuir as coisas para que coubessem melhor.

O pequeno casamento foi durando um grande tempo.


Mas a tarefa de desenrolar e enrolar bolinhas de meia foi crescendo até ocupar mais espaço do que devia — maior, talvez, que o próprio casamento.


A pequena discussão a respeito das meias foi se repetindo, sem alarde: ganhou tom, corpo, tornou-se um grande embate.


Até que ela, parada diante da pilha de meias sujas, pensou — não mais com paciência, mas com precisão:

Até quando esse pequeno marido vai me infernizar com sua grande exigência de mundo dobrado ao meio?

 

A grande esposa desenrolou as meias e enrolou o pequeno casamento.

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