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Shifting

SHIFTING

Ana Helena Reis


Cada vez que ouço um grupo de câmara tocando Bach, Teleman ou Handel minha alma entra em festa. Fecho os olhos e me vejo ali, naquele ambiente barroco intimista, delicado, harmonioso, e espero o meu momento, como se fosse o último instrumento de sopro a entrar, no compasso exato. Encho o diafragma para soprar afinadamente até os últimos acordes, em comunhão com o divino.


Musicista foi um caminho que não consegui trilhar por falta de talento e perseverança, apesar de ter me iniciado na flauta durante a juventude. Ficou o encantamento, a vontade, o sonho. Me contento, desde então, em ser audiência, em ter o privilégio de ouvir os virtuosos interpretando meus compositores prediletos aqui, do sofá de casa, ou em uma sala de concertos.


Como eu, creio que a grande maioria das pessoas têm ideais inatingíveis nessa existência. Pessoas que não conseguimos ser, vidas que não conseguimos viver, enfim, frustrações que temos que lidar de uma forma ou de outra: procurando alternativas ou ajuda profissional para acalmar esse sentimento e contornar o que é impossível mudar, o que é uma prática saudável, ou se entregando a mecanismos escapistas para não ter que encarar a realidade.


Até aqui, tudo mais do que conhecido. O que para mim é novo, e quero crer que para uma boa parte das pessoas também, é um movimento que teve seu início em 2020 denominado Shifting, e que vem crescendo de forma assustadora entre adolescentes e jovens, especialmente as meninas.


Shifting é o ato de mover sua consciência da atual realidade para um universo paralelo, da realidade desejada ou DR. O shifting realities ou a mudança de realidade, é a crença de que a mente tem a capacidade de mudar de uma realidade para outra quando desejar, através da teoria do multiverso.


Para se ter uma ideia da disseminação dessa prática, os relatos no TikTok das viagens para a realidade desejada, e os scripts pelos usuários de shifting em sua DR tem tido no número crescente de views e a tag #realidadedesejada já possui mais de meio bilhão de publicações.


A vida em família está complicada? Está sofrendo bullying na escola? Não tem prazer na vida que leva? Queria ser de outro gênero? Gostaria de namorar o Harry Potter? Tudo é possível se você conseguir aprofundar sua experiência de shifting e viver literalmente na sua DR – acordar, fazer suas atividades, viver o personagem idealizado, em um outro plano de consciência.


A gravidade maior desse escapismo é que os jovens vão se aprofundando nessa experimentação onde a vida é ideal, reconfortante, sem qualquer desafio ou sofrimento, a ponto de se descolarem mais e mais da sua realidade. E aí começam a vislumbrar a possibilidade do respawn, que seria uma reencarnação. Consiste em descartar o corpo, não apenas falando da morte do corpo físico, que pode ocorrer ou não, mas de recomeçar a vida em uma outra realidade.


É uma maneira de mudar permanentemente para a realidade ideal, forçando a transição e fazendo seu corpo nessa existência real morrer literalmente ou desaparecer, transferindo sua consciência para o seu corpo ideal, para sua personalidade ideal. E isso não tem volta.


Como frear esse movimento apavorante? Fica aqui somente a minha angústia, meu alerta aos pais; não tenho as respostas, infelizmente.

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